Em busca do destino
Publicado por admin em jan 30, 2011 em Artigos | 0 comentáriosPublicado na Folha Dirigida, em 03/12/2009
*** Professor Antonio Luiz Mendes de Almeida
Às vezes eu paro, faço uma pausa no dia-a-dia e reflito sobre algumas coisas, as bandeiras que mantenho erguidas, as teses que defendo, minhas crenças e ideais, alguns sonhos desfeitos e esperanças frustras. Vejo a nossa universidade pública, anacrônica, conservadora, mofada, corporativista, sem qualquer criatividade e sem devolver à sociedade o que ela gasta para manter o funcionalismo e corpo docente inchados. São milhões desperdiçados e as pesquisas não aparecem, temos apenas 0,2% em registro de patentes, ou seja, praticamente nada da mesma maneira que nada se faz. A situação é igual e séria desde que Anchieta por aqui aportou: vemos o ensino básico desorganizado, a batalha entre os que defendem os malfadados ciclos e os a favor da repetência, os números de matriculados e a quantidade de analfabetos que chega à quarta série incapazes de redigir e de entenderem o que leram. O percentual de 97% de ingresso, alcançado na gestão anterior, é digno de louvor, mas sempre ficou a suspeita de quantos iriam concluir a fase e, principalmente, qual era a qualidade de ensino que estariam recebendo. Comprova-se que se trombetearam índices, mas a realidade é outra, as deficiências cresceram, as dificuldades fermentaram, as injustiças progrediram e as diferenças sociais alargaram-se, fazendo com que se acenasse com ações ditas “afirmativas”, simples disfarces do descaso e do desconhecimento. Fala-se em quotas raciais e a sua imposição, o que jamais foi meio de convencimento da validade da sugestão. Em diversas ocasiões, escrevi que o problema não estava na cor da pele, a escola não discrimina, o negro, por históricas razões (aí a dívida inegável) se encontra nas camadas menos favorecidas da população e, com o ensino público devastado, suas possibilidades de acesso são mínimas como acontece com os brancos carentes e demais minorias. Não é reservando lugares que se resolverá a questão e, sim, aprimorando a prestação de serviços educacionais ao contingente desvalido, dando-lhes instrução e instrumentos para ascender na escada social, realizando-se como pessoa e cidadão. Ouço muito blá-blá-blá, principalmente dos políticos, e nada de prático acontece, as promessas se esvaem quando os votos são computados. Por outro lado, não há mudanças, gente nova e disposta, conceitos atualizados e adequados, são sempre os mesmos na educação, revezando-se nos cargos e reverenciando-se entre si enquanto nós, a choldra, padecemos nesta disputa de vaidades tolas.
Respiro no parágrafo para conter a irritação e pesar as palavras antes de prosseguir reclamando da conjuntura a que fomos levados pela incúria e descompromisso com as necessidades deste país. Em seus três compartimentos (fundamental, médio e superior) a educação desmorona sem que se tomem providências. Quando se troca de ministro, o que assume se esmera em apagar o que o antecessor tinha tentado executar, deixando-nos na vacância das disposições, vagando ao léu, à procura de um rumo que não existe. O MEC se enrola nas propostas que dispara, recua, muda, ameaça, tropeça, evidenciando que lhe falta o norte e de que não tem noção do que precisa ser feito. Ora é medida provisória, ora projeto de lei, ora tenta a sedução de isenção fiscal depois retira, inteiramente perdido em suas ações enquanto aguardamos o que poderá vir de efetivo, de realizável, de bom e correto. A verdade é que o ensino despenca, rola ladeira abaixo empurrado pelo descaso e ignorância de seus presuntivos responsáveis. Acusa-se a iniciativa privada para justificar a inoperância e os privilégios do setor público e não se faz a aliança devida visando dar a esta nação que amamos, o modelo apropriado a suas indigências e esperanças legítimas. Pelo jeito, continuaremos a vagar em busca do destino fugaz, do sonho incompleto, do ideal dilacerado enquanto a educação é tratada com desdém e como brincadeira. Diante deste panorama contristador, como não rever as crenças veteranas, conter a ira abafada, alimentar a ilusão esfarrapada de que um dia quem sabe, as gerações que nos sucederem virão a ter uma educação digna? Para nós, o bonde já passou, acumulamos apenas lembranças e desejos frustros e nos tornamos culpados do que não fomos
P.S.1:Fico pensando: será que um dos intérpretes (o assessor indispensável) do “maior presidente etc e tal”, monoglota mediano e assumido, não se animaria a escrever um livro sobre o que não traduziu nas conversas entre os dignatários dos países? Imagino os contratempos por que deve ter passado, a dificuldade de encontrar as palavras certas, a contenção da vontade de rir.
P.S.2: Depois de dois apagões, a ironia: recebi a conta da Light… Até hoje estamos pagando mais em virtude do apagão do governo passado para compensar as perdas das empresas. Ora, que jogo é esse? A empresa não pode ter prejuízo? A fatura sempre chega para o espoliado consumidor?
P.S.3: Há um comercial que me deixa escabreado, aquele de um jornal que estampa: “Nós e você. Já são dois gritando”. Primeiro, um período sem predicado, segundo, se são os sujeitos, por dedução, deveria ser “já somos dois gritando”. E mais, se os sujeitos são “nós” e “você”, obviamente são, no mínimo três, a menos que o “nós” seja majestático, o que não acredito. Estarei errado?
P.S.4: Passei o fim de semana num pedaço de terra que tenho na serra onde me escondo e consigo dormir com os dois olhos fechados. Na noite de sexta, apagão, na manhã de sábado, outro e no domingo, idem… Só a “madrasta” do PAC insiste em negar a evidência gritante.
P.S.5: “Cesteiro que faz um cesto…” Pois é, pego violando o painel do Senado, renunciou e aproveitou-se do esquecimento popular para eleger-se governador, mas não perdeu os maus hábitos…
*** Vice-reitor da Universidade Candido Mendes


